Uma história mais longa

 

 

Tenho pra mim que somos seres em eterna formação (e transformação). Não deveríamos nos ater à descrições físicas. Elas não importam. Ou, talvez, na verdade, elas importem por demasiado. Você é capaz de se descrever fisicamente sem pré-conceitos? Sem a priori? Sem medo? Sem hesitação? Sem cargas emocionais positivas ou negativas? Alto/baixo, gordo/magro, loiro/moreno, careca/cabeludo. Não são esses adjetivos descritivos? Quando foi que o mundo fez a curva e esses adjetivos viraram qualitativos? Porque podemos dizer “aquela moça alta”, mas é preconceito se dissermos “aquele rapaz gordo”?

Eu sou alta (pra média brasileira), quase loira (depende do sol e do cloro da piscina), tenho olhos verdes, dedos longos, uma orelha de abano e a outra não. E sou magra! De fato. Objetivamente, magra. Não era. Nunca fui. Agora sou. E não pense que essa descrição sai fácil e naturalmente – por mais que o mundo veja esse “magro” como o último dos elogios.

Bom, ok. Estabelecemos a minha magreza. Agora para tudo e chegamos naquele momento onde eu conto que perdi (ou eliminei) um total de 40kg e anexo aqui aquela bela montagem com a foto antes/depois, né?

Só que não!

Vou contar, sim, o blá blá blá sobre ter perdido os 40 quilos, mas aqui não vai rolar aquele modelinho antes/depois de tantos veículos que falam sobre mudança de estilo de vida (e corpo). Não estou julgando quem compartilha. Cada um sabe de si e cada um sabe o que faz parte e o que ajuda o seu processo. Eu não tenho vergonha do corpo que eu tinha. Não gostava do meu corpo, fato. Mas entre não gostar e não admitir o que eu era, vai um longo caminho. Eu simplesmente não acredito muito na premissa anexa à essas comparações. Como se o antes fosse errado/feio e o agora seria o correto/bonito.

Pinit

Prefiro compartilhar foto de comida. Foto das minhas sobrinhas. Foto do céu azul de Paris.

Não tem foto de antes e depois, mas vai ter textão com historinha desse antes e depois, sim. Prepara! Eu devia era contar a história em áudio, em forma de Podcast (aliás, atenção podcasters, eu aceito convites hehehe). Por hora, peço paciência para a (longa) leitura.

Pinit

Bom, começando pelo começo… papai e mamãe se conheceram na rotisserie da vovó. Se apaixonaram. Casaram. Quiseram ter filhinhos. Luaninha nasceu. Sou a primogênita (de dois). Quanta alegria, quanta felicidade, a vida é bela e plena. Tirando o fato de que, eventualmente, o povo resolveu sacar que eu tinha nascido com a desconjunção da desconjuntura (como diria minha amiga). Traduzindo, eu tenho displasia congênita de quadril bilateral (congênita porque eu nasci com ela e bilateral porque é nas duas pernas). Vim com bilhete premiado. O drama dos médicos e etc. é uma longa história e não vou perder ainda mais tempo entrando em detalhes, mas, o que vale ressaltar é que a tal desconjunção tem, como efeito colateral, um super desgaste da minha cabeça femural, ou seja, artrose de velhinha de 90 anos com menos de 20. E eu só digo uma coisa: DOI! Muito! 100% do tempo!

Outra consequência da displasia é que eu não posso praticar atividades físicas. Não posso correr, pular, andar de bicicleta… Nada que cause impacto ou que possa desgastar ainda mais a minha frágil articulação femural. Quando a gente é adolescente é um sonho ter atestado médico vitalício nos dispensando das aulas de educação-física, né? E, anos mais tarde, também é uma benção a gente poder dizer que não faz academia porque não pode. Mas e aí? Quando precisa emagrecer? Como faz?

Eu pergunto, e eu respondo. Faz natação. Natação eu posso. E devo. E detesto (ou detestava, mas essa parte eu conto mais tarde). Ninguém é feliz com o que tem. Normal. Eu achava chatíssimo e solitário de mais enfiar a cabeça debaixo da água e ficar indo de um lado para o outro da piscina. Resultado: vida mais do que ociosa e com aval médico, que dizia que eu deveria andar e me movimentar o mínimo possível.

Eu acho que, de certa forma, sempre carreguei minha deficiência com certo orgulho – não pela limitação em si,

Pinit
que era quase imperceptível, mas acho que em sempre lidei com ela de maneira digna e brava, fazendo disso um mero detalhe na minha vida, quase um coadjuvante, personagem terceiro ou quarto na minha trama principal. Imperceptível, coadjuvante, mas real, sofrida, e fisicamente desgastante por conta das tais dores. Por outro lado, sempre vivi esse desconforto como sendo parte de mim. Não sei se eu conseguiria  me reconhecer sem a dor e não vejo nela nenhuma forma de masoquismo ou autocompaixão. É apenas algo extremamente inerente à mim e nunca gostei quando alguém dava demasiada importância ao meu sofrimento ou à minha condição (por falta de palavra mais adequada). Não era altruísmo, nem negação. Eventualmente um certo medo me ver definida pela deficiência à qual eu não atribuía tanta importância.

Não atribuía, mas com o passar dos anos fui obrigada a atribuir. A dor aumentou, a limitação aumentou e a naturalidade com a qual eu dizia “tenho um ‘problema’ nas pernas” deu lugar à compreensão e a utilização consciente da tão temida palavra “deficiência”. Eu seguia me vendo como aquela garotinha que tinha ‘um problema nas pernas’, mas agora sabia que o mundo podia compreender essa minha deficiência como bem entendesse e, por isso, cada vez mais sentia que queria este assunto resguardado.

Pinit

Chorei bem as pitangas da deficiência e termino dizendo que quero que isso seja um assunto privado. Doida, né? Aqui você se pergunta: “menina, se você quer resguardar a parada, orque diabos você está que nem doida contando toda essa história na internet? O que tudo isso tem a ver com a hora do Brasil? Bom, eu contei esse blá, blá, blá todo, simplesmente para dizer que a vida toda eu ouvi que precisava emagrecer. A vida toda eu ouvi que quanto menos peso eu carregasse, melhor seria para as minhas pernas. Que elas sofreriam menos. E, para coroar, eu sou tão humana quanto você e meu desejo de perder peso ia muito além das minhas pernas. É claro que eu não estava satisfeita com o meu corpo. Estamos falando dos anos 90 e essa onde de body positive e aceitação estava bem longe de existir. Aliás, acho que a galera que encabeça o movimento estava nascendo.

Falo com certo conhecimento de causa que acho injusto quem pensa que vaidade não seja motivação suficiente para perder peso (ou para se lançar em qualquer mudança física ou psicológica). Eu acredito que toda motivação é digna e cabe a cada um de nós encontrar o que nos faz sair da inércia. No meu caso, aparentemente, o médico “mandar” não era o suficiente. – Pelo menos não naquele momento. E a vaidade também não era.

Detesto ouvir máximas como “só é gordo quem quer”, ou “fulano/a não emagrece por falta de força de vontade”. Para mim, não há maior prova de força de vontade do que alguém que encara uma dieta (seja ela qual for) e depois que a tal dieta não dá certo (seja pela razão que for) a pessoa se lança em mais outra dieta, e outra dieta, e outra dieta. Eu, no caso, nunca tive essa tal força de vontade. Nunca me lancei nas dietas. Flertei com algumas, mas nunca cheguei às vias de fato. Eu tinha como certo que eu nunca iria perder peso. Eu dizia que o meu “metabolismo era lento”. Que a vida ociosa era um fardo do qual eu nunca me livraria. Que eu era chata para comer e sem gostar de salada e legumes era impossível fazer regime. Enfim, eu decidi que era gorda e seria gorda para sempre porque eu não conseguia fazer o que era necessário para mudar isso.

Até que um dia alguma coisa mudou. Eu posso dar para vocês um momento preciso que transformaria esse post em uma linda história de superação. Eu posso contar para vocês que um belo dia, as minhas dores começaram a ficar muito insuportáveis e eu decidi que era hora de colocar uma prótese de cabeça femural. Eu posso contar que passei meses lembrando das palavras que o meu ortopedista proferiu minha vida toda; “nosso objetivo é adiar a cirurgia porque a primeira você pede, as outras, eu que mando.” Ok, próteses hoje são muito mais modernas, mas seguem tendo vida útil e eu sigo sendo jovem de mais para poder passar a vida toda com a mesma prótese. Eu posso contar que fui num ortopedista especializado em quadril que me disse “eu te opero amanhã, você é saudável. Maaaaaas, se eu fosse você, perderia um pouco de peso para ganhar em vida útil da prótese.” Posso dizer que saí dessa consulta aos prantos, mas que decidi marcar uma consulta em uma endocrinologista, que me levou à minha nutricionista, que me levou à perda de peso, que me afastou da necessidade da tal cirurgia. Eu posso contar toda essa bela história, mas agora, olhando para trás, eu não acredito que tenha sido esse momento exato que tenha feito a diferença. É como quando a gente explode por uma bobagem. É a tal última gota d’água antes do copo transbordar.

E quando a última gota cai, os planetas se alinham e as coisas parecem andar sozinhas. Eu saí daquele ortopedista e mandei uma mensagem para uma amiga que sempre me falara da sua endócrino maravilhosa. O consultório era do outro lado da cidade (e notem que eu estou falando de São Paulo, ou seja, distância é, sim, uma questão), mas aceitava o meu convênio e era perto do onde eu morei a infância toda. Achei que valia a tentativa. Fizemos todas as pesagens e medições de praxe, ela me pediu mil exames… Na época eu pesava 103Kg. Já fazia um bom tempo que eu não me pesava, mas eu sabia que o peso girava em torno dos 100. Quando a gente sabe que flerta com os três dígitos, sempre que podemos evitar a balança, o fazemos, né? Enfim, eu retornei com os resultados dos exames e ela disse “você não tem nenhum problema de saúde, só o que você precisa é de uma boa nutricionista. Tenho uma para indicar, mas você pode ir em qualquer outro profissional.” Uma das coisas que me fez apostar na indicação da endocrinologista foi quando eu disse que era difícil para mim fazer dieta porque eu não gostava de salada. Ela riu e disse que eu não era vaca para comer salada o tempo todo.

Expliquei para ela que eu estava saindo de férias em uma semana (20 dias em Paris) e que durante aquele período eu não faria regime, portanto, que eu procuraria a nutricionista na volta. Naquele momento, ela me receitou um remédio. Moderador de apetite. Coisa simples. Sugeriu que eu poderia levar comigo na viagem e que me ajudaria a maneirar na extravagância gastronômica que a França me proporia. Eu sou cagona. Não tive coragem de comprar o remédio. Vai que me dava um revertério no meio das férias? Decidi nem pensar nisso durante as férias. E foi assim.

Pinit

Na volta da viagem, confesso que a empolgação do “vamos emagrecer” já tinha passado e eu queria mais era marcar a cirurgia da prótese para poder tocar logo a minha vida pós operatória. Mas eu tinha prometido para mim mesma que daria uma chance à empreitada e marquei a consulta na nutri. Me lembro até hoje da minha mãe dizendo: “vamos só para ver. Se você não gostar, a gente não volta”. E fomos! Eu e ela. E foi numa quinta-feira de 2016 que a minha vida começou a girar 180°.

Passei por uma consulta com a Hevoise Papini (recomendo, sim! Quem me conhece sabe que é Deus no céu, Hevoise na terra) de cerca de duas horas onde eu fui totalmente honesta (com a nutri e comigo mesma) sobre a minha realidade, sobre as minhas limitações (físicas e psicológicas), sobre as minhas vontades, minhas necessidades e sobre as minhas frustrações. Sei que faz parte do trabalho da nutri ouvir toda essa história para poder adequar um plano específico às minhas necessidades, mas seja como for, tem profissionais que nos provam que existe, sim, algo chamado vocação. Porque não basta falar e a pessoa escutar. Ela precisa realmente ouvir. Entre tantas coisas eu expliquei que era viciada em coca-zero e eu disse que não gostava de salada. Que não comia legumes. Que gostava muito de queijo. Que eu achava que estava um tanto viciada em açúcar e talvez fosse bom  maneirar ou para de comer doces por um tempo. Minha mãe disse: “a Luana quer emagrecer comendo macarrão todos os dias”.

Pinit

Saí de lá relativamente otimista decido ao sentimento de que, pelo menos, alguém tinha ouvido o que eu tinha para dizer e ia, realmente, pensar em algo em função das minhas chatices. Ela me disse que não tinha nenhum problema em comer macarrão todos os dias e que a coca-zero fazia muito mal para a minha saúde, mas com tantas mudanças, talvez a gente não precisasse mudar esse detalhe agora. Pensa… quantas vezes na vida você achou que um nutricionista fosse te dizer que você pode comer macarrão todos os dias e “tudo bem” se você é viciado em coca-zero? Claro que o ideal não é só comer macarrão todos os dias e é médio tudo bem (ou zero tudo bem) o vício em coca-zero, mas a premissa do ‘uma coisa de cada vez’ me fez sentir mais do que compreendida. Me fez sentir RESPEITADA!

Voltei uma semana depois para pegar o plano alimentar que consistia em… COMER MACARRÃO TODOS OS DIAS! E tinha pão, e tinha queijo e tinha peixe e carninha de vez em quando (eu contei que não era muito fanática por carne vermelha). E tinha frutas. TODAS! Sem essa de uma é mais calórica do que a outra. As frutas (in natura) seriam as substitutas dos doces. E, sim. Tinha salada e legumes. Como opção. Se eu quisesse me aventurar. Eram a vontade, caso eu me interessasse. Era inverno e minha mãe lembrou que eu gostava muito de sopa (a única maneira de me fazer comer legumes). A nutri disse que se a sopa não tivesse tubérculos, nem proteína, eu poderia comer a vontade. Bingo! Já tinha minha porção de legumes garantida pela sopinha.

Naquele dia não falamos em meta de peso, ou de medidas. Apenas falamos que o que importava era que a minha saúde estivesse em ordem e que, eventualmente, eu poderia sentir menos dor nas pernas. Eu disse que nadava de 2 a 3 vezes por semana. Já não era considerada sedentária. E a nutri foi bastante enfática ao dizer que não era para eu virar rata de academia. Que não era para eu fazer nada que eu não fosse sustentar para o resto da minha vida pois isso só faria com que eu voltasse a ganhar peso quando parasse com o novo pseudo-hábito. Saí de lá com cerca de 100Kg e sem grandes expectativas, mas, valia a tentativa.

A proposta era ir ao mercado no final de semana e me preparar para encarar o desafio a partir da famosa segunda-feira. O final de semana foi corrido por alguma razão que eu não me lembro e o domingo a noite chegou sem nenhum esboço de passeio no mercado. Na segunda-feira, durante o almoço, eu disse para a minha mãe: “vamos ao mercado hoje a noite?” Pensei que poderia ser simbólico começar a minha dieta em uma terça-feira, tirando completamente o peso da tal segunda. Pode parecer bobagem, mas, nessas horas, toda bobagem que puder dar algum ânimo, conta.

E assim foi… tudo começou no dia 28 de junho de 2016. Uma terça-feira.