Repolho assado

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Vou começar pela historinha, que é curta, mas, como sempre, dá pra pular o papo furado e ir direto para a receita clicando aqui.

O que veio primeiro, o ovo ou a galinha? – Foi a primeira coisa que pensei quando decidi fazer esse post de repolho. Não sei se estou escrevendo porque quero dividir a receita ou se o que eu quero mesmo dividir a historinha que sempre me vem em mente quando vejo um repolho.

Pinit
Foi lá em 2001 em uma das icônicas viagens da família Ferrari (com meus pais e irmão). Olha a foto pseudo vintage aí ao lado pra provar os idos dos anos 00. Nossas viagens familiares (como acredito que sejam a maioria das viagens em família) sempre foram grandes aventuras recheadas de brigas, risadas e episódios peculiares. Entre uma entrada na contra mão na autopista inglesa que rendeu uma mecha branca nos cabelos do meu pai instantaneamente, um castelo mal assombrando na Escócia, papai fazendo xixi nas calças em meio à Galeria Lafayette, meu irmão comprando pomada anti-assadura pra mim dizendo pro farmacêutico francês que a irmã dele precisava de um creme pra quando a gente vai ao banheiro, faz cocô e não se limpa e tantas outras que valeriam alguns livros, teve este breve momento de risada na Alemanha.

Acho que foi um Munique, mas a minha mãe há de deixar aqui nos comentários em qual cidade foi exatamente, porque eu não me lembro. Meu pai é o doido das verduras e legumes (eu tive a quem puxar – mesmo que tardiamente). Ele ama todos os legumes que você possa imaginar. Do xuxu ao jiló, passando por menos mas também polêmicos como pimentões e berinjela. Claro que o repolho entra nesta lista e ele já estava mais do que sonhando em se deliciar com quilos de chucrute quando chegássemos na Alemanha. – se na época eu soubesse que fazer chucrute era tão fácil ele comeria tanto em casa que nem ligaria para o da Alemanha – Mas eu ainda não era a mestre cuca dos legumes e a ideia de comer repolho fermentado direto da fonte já fazia meu pai salivar.

Agora façamos uma pequena pausa para um momento linguístico. Você sabe falar chucrute em alemão? Você sabia que chucrute nada mais é do que a maneira em português de escrever “choucroute” (chou é repolho em francês)? Sim! Chucrute é repolho fermentado EM FRANCÊS!!! A iguaria, em alemão, se chama Sauerkraut. Tenho certeza que não estou contando uma grande novidade para muitas pessoas, mas a minha família não tinha nem ideia deste detalhe. E digo mais, acho é esse post que vai explicar aos meus pais porque a tentativa de pedir repolho na Alemanha foi tão fracassada.

Pinit
Bom, voltemos à viagem. Munique (ou a cidade que a minha mãe disser que foi). Mercado de rua (numa época que essa moda de street food e food trucks não existia). Meu irmão, carnívoro de carteirinha, já estava salivando vendo todas as linguiças espalhando seus aromas pelo ar. Claro que a gente ia sentar e comer naquele parque de diversões gastronômico. Sentamos em uma mesa de madeira com bancos longos, daquelas que se compartilha com o coleguinha que senta ao lado. Pai e mãe já pediram duas belas cervejas. Eu devo ter ido de coca light (foi antes da era coca zero e antes de eu ligar bem menos pra refrigerante). Acho que meu irmão deve ter ido de coca também. Ele ainda estava na fase refri. Chegaram as bebidas, era verão, várias pessoas circulando pelo mercado, nossa viagem que abrangeria sete países europeus em um mês estava apenas começando. Junior já pediu logo um belo pão com linguiça (sem molho nenhum) talvez acompanhado de algumas batatas fritas, que seria seguido por mais um ou dois sanduíches porque ele sempre foi um garoto de gostos simples mas apetite voraz. Minha mãe, que adora um cachorro quente, também mandou um bom combo, mas deve ter colocado mostarda e mais alguma coisa que eles poderiam propor. Minha escolha deve ter sido parecida com a do meu irmão, mas confesso que se tivesse a opção queijo quente eu preferia. Aí veio meu pai. Foi de linguiça, claro. Estávamos na Alemanha e ele é fiel aos costumes culinários locais. Nossa garçonete não era a pessoa mais bilingue do universo, mas meu irmão estava super se virando na comunicação em inglês. Até aí tudo sob controle. Exceto quando veio a parte de pedir o chucrute. Chucrute???? Não. A palavra não parecia fazer parte do vocabulário da alemoa. E repolho, em inglês, também não fazia parte do meu vocabulário e do meu irmão. Meu pai não teve dúvida. RE-PO-LHO! Em português mesmo. Porque não? E foi então que descobrimos que francês a garçonete não falava, mas bem que arranhava um espanhol porque a resposta dela foi um sonoro “POLLO” com um sorriso aberto de satisfação de quem havia compreendido e poderia atender ao pedido dos clientes vindos de tão longe. A explosão de riso de nós quatro foi tanta que só deu tempo de sinalizar em deixa pra lá e evitar que ela nos trouxesse um franguinho junto com os sanduíches de linguiça, mas nem preciso dizer que “pollo” virou não só a piada da viagem, como a piada da vida cada vez que nos vemos numa situação repolhística.

Pinit
E por falar em situação repolhística… quando eu dei a receita de repolho com molho de tomate, que eu chamei de “repolhada” (misto de repolho com macarronada) – clica aqui pra pegar a receita – eu evoquei o milagre da multiplicação do repolho. Rende um montão, e isso é ótimo. Mas as vezes uma sugestão pra sair da mesmice e não comer salada de repolho e repolho refogado uma semana pode ser muito bem vinda, né? Food Therapy ao resgate que a receita de hoje é a coisa mais simples do mundo.


Vamos?

Repolho assado

Pinit
Ingredientes

Repolho (quanto você quiser)

Sal e pimenta do reino a gosto

Páprica defumada

Fio de azeite de oliva

 

Modo de fazer

Antes de começar, vamos ligar o forno pra ele já ficar bem quentinho e acelerar o processo. Forno alto, 220°C.

Agora vamos atacar de repolho. Tenho até vergonha de dar esse passo a passo, mas tem alguns detalhes que merecem atenção. Retire eventuais folhas molengas, soltas do repolho e apoie a base dele numa tábua de corte. Com uma boa faca, corte fatias de cerca de 2 dedos. É importante que sejam grossas para não arrebentar. A gente vai fazer, tipo, um bifão de repolho. E vale lembrar que os legumes são compostos, em grande parte, de água, ou seja, quando assados eles enxugam e diminuem de tamanho.

Espalhe as fatias em uma assadeira com cuidado para manter a “integridade” do repolho. Sim, beleza é importante. Tempere com um pouco de sal e pimenta do reino e coloque um fiozinho de azeite – como sempre, vou insistir no ‘pegue leve no azeite’. Pronto! Agora é só levar ao forno por cerca de 30 a 40 minutos (varia de forno pra forno). Até ficar douradinho.

Pinit

Na hora de servir é o momento de inovar. A verdade é que vale qualquer tempero. Alecrim, orégano, tomilho. Tudo fica uma delícia. Cada um com suas características específicas. Mas aqui, o que eu sugiro é que você salpique páprica defumada no seu bife de repolho. O defumado faz toda a diferença nesse prato. E é importante salpicar a páprica na hora de servir pois a especiaria pode amargar um pouco o preparo quando é cozida de mais.

Além de deixar o prato com um colorido lindo, vocês não acham?

Pinit
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