Nadando contra a maré

 

 

 

Agora vamos ao sedentarismo. Ou melhor, ao fim do sedentarismo. Por conta da displasia eu nunca fui dada às práticas esportivas. No entanto, há poucos anos, descobri um vago prazer em voltar às piscinas. – Comecei a nadar quando era criança e o fiz durante muitos anos por recomendação médica, mas quando tive autonomia suficiente abandonei a água clorada por sentir naquilo um tratamento médico-. Agora, adulta, encontrei na natação a fuga que buscava a vida toda. A salvação contra a tal deficiência. Conto minhas chegadas por enquanto reflito sobre os cenários fictícios de minha realidade imaginada. Tem algo de fascinante, relaxante e excitante sobre a água que eu nem sei explicar, mas sinto ferozmente. E foi aí, quando eu me abri para a experiência, que o Wanderlei Santos e os Yellowcaps cruzaram o meu caminho. De repente eu pertencia a um grupo. A uma equipe. De esporte. Eu. A menina com problema nas pernas. A deficiente. A solidão da piscina deu lugar à uma nova rede de apoio. Nunca vou esquecer das palavras do coach quando eu sentei na borda da piscina e disse que eu morria de dor e que não conseguia. Um coach que enche sua equipe de orgulho com feitos atléticos invejáveis e treinando todas os seus atletas (que sejam profissionais ou amadores) com a mesma garra, amor e dedicação. Para mim, o Wander foi mais do que um professor de natação. Muito mais do que um coach. Os Yellowcaps foram muito mais do que um companheiros de piscina. Entre performances e medalhas, esse time mudou a maneira com a qual eu enxergo a mim mesma de uma maneira muito mais profunda do que eu poderia se quer imaginar.
Pinit
Pinit
Quando me dei conta, eu pesava mais de 100kg e estava fazendo travessia. Nadando em mar aberto. A sensação de potência, confiança e certeza que eu senti – talvez pela primeira vez na vida – quando vi o mar aberto e pensei que eu era, sim, capaz de enfrentar aquelas ondas e o domínio de Netuno teve efeito lisérgico. Eu nunca gostei de competições e me lembrava com graça do dia que mergulhei de um bloco pela primeira vez direto para baixo. O salva-vidas caiu na água e ficou de prontidão notando que, na hora que eu atingi a superfície, minhas oponentes já estavam completando a prova. Conto sempre essa história e rio. Decididamente, nunca gostei de competir. No entanto, nas travessias a competição era de outro nível. Era comigo mesma. Era uma batalha travada com meu próprio ego e autoestima em um lugar onde a minha deficiência era verdadeiramente coadjuvante. Foi quase catártico e inexplicável o momento em que sai do mar pela primeira vez e tive a certeza de que havia completado um feito do qual nem todos eram capazes. Foi (e ainda é) minha expressão máxima de vaidade.